sexta-feira, 28 de abril de 2006

Poeta do Dia: Vinicius de Morais

"Dia e noite são iguais:
Fica noite se tu chegas;
Anoitece se te vais"

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Passado Revisitado

(Texto escrito por volta de Setembro de 2005)
Antes de acordar já sabias que não ias estar ali... perguntei à noite «Porque não o prendeste no teu abraço frio? Esse que me ofereces sempre tão constantemente...» Ela riu-se de mim e beijou-me (Eu desejei que fosses tu) Agora finjo que nada aconteceu, abraço-me a ti para não te perder, como se isso fosse mudar alguma coisa. Os meus lábios escapam por pouco ao prazer de te saborear uma vez mais, os meus pés transportam-me para junto do teu corpo; E eu não quero; E eu não sei se quero! Volta para trás. Nunca mais. Nunca mais olho para ti.
Fotografia por Marcelo Guedes, « o que será que estão sonhando»

terça-feira, 25 de abril de 2006

What If

"What if you should decide
That you don't want me there by your side
That you don't want me there in your life ?", Coldplay, Álbum x&y

sábado, 22 de abril de 2006

Da tua nuvem

Fotografia por Alexandre Salles, «Estudo 003»
Olhei para o lado e já não estavas
Não sei se exististe
Algum dia; E acima de tudo
Surpreendi-me com a minha capacidade de sonhar
Descobri-me em ti
Quando te foste embora
E agora já não quero que voltes
Pintaste da tua nuvem
Os meus sonhos de verde
E de azul e amarelo - Agora,
Deixa que me estique até tocar a ponta do teu pincel
E pinta-me de novo, de branco,
Mas da tua nuvem,
Para que a distância crescente não me permita
Ver o teu rosto

Ou aspirar o teu perfume
Ou lembrar-me de como me senti
Contigo
Sopro as recordações na tua direcção,
Caminho em direcção ao mar
Virando-me para trás vezes sem conta

E nunca sem um pouco de carinho
Espezinho os últimos vestígios de ti.

terça-feira, 18 de abril de 2006

Poeta do Dia - Pablo Neruda

Foto de Graça, «a room at the heartbreak hotel»
"Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,

se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo."

domingo, 16 de abril de 2006

Envelhecida


Foto por Fernando Siqueira, «a dor do sentimento»
Fico-me com as recordações. Os pedaços que me deixaste. Mais nada. Não posso mais, não assim. Não consigo... Desculpa-me mãe, mas não me chega o que tenho agora. Não me devolveste! Quero-me tanto de volta... Como era antes. Aqui é tudo cruel e frio. Aqui é tudo tão alegre e eu não aguento. À minha volta, risos. Da minha boca, gargalhadas. E eu, só. Desnorteada. Sem rumo. Quero tanto e não consigo. Tudo me dói. E eu? Onde terei ficado? Pelo caminho. Pedaços de mim. Onde te disse que era tua. E agora não sou de ninguém, nem eu me quero. Não quero que sejas feliz. O frio gela-me os ossos e eu sei que tenho de voltar para dentro. Mas tenho medo. Medo da alegria que não consigo sentir, medo de ti que estás em cada divisão, do pouco que te pedi e que mesmo assim não me quiseste dar. Tenho medo de ficar aqui fora para sempre, de nunca mais arranjar coragem para voltar a entrar. De ver para sempre a vida por uma janela embaciada pela minha respiração alterada, pelos soluços que acabo por não conseguir conter. De ficar aqui a olhar para um corredor por onde ninguém irá passar, aparecer subitamente para me abraçar e dizer que está tudo bem. Estou sempre tão cansada. Sou demasiado nova para estar sempre tão cansada. Envelheceste-me. Estragaste-me. Não suporto a ideia de seres feliz. Não consigo. Tudo aqui é demais para mim. Contigo, era sempre muito pouco. Não consigo ser forte o suficiente para não desejar nunca te ter conhecido. Por isso mesmo, seria esse o meu pedido a uma estrela cadente. Nunca me disseste o teu. Pode ser que se tenha realizado. Quem sabe? Só tu. Só tu saberás ao certo.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

O Derrubar de Muros

(Texto escrito a 20 de Dezembro de 2005: )
Não sei quanto tempo mais vou aguentar esta situação... Ter de me lembrar tantas vezes como doeu e como dói ainda toda a situação em que me meti. De como me senti humilhada e como me sinto ainda... É incrível como tudo o que senti de mau na altura permanece de uma maneira tão determinante. A humilhação. O medo. A vergonha. A dor psicológica. A incerteza. A sensação crónica de estupidez completa. O ódio. Ódio tão supremo, tão absolutamente aniquilante. Tão mortífero. Por mim. Pelas escolhas que fiz, pelas escolhas que me obrigaram a fazer. Pelas que não púde fazer, aquelas que devia ter feito e não fiz. Tudo isto permanece... Meses e meses depois. Não a sensação de distância que no momento esperei vir a ter, mais tarde. Por vezes sinto-me como se tivesse acontecido ontem. Mas não aconteceu, relembro isso a mim própria vezes sem conta. Eu já devia ter ultrapassado esta situação. Mas não consigo. Há uma espécie de muro que não consigo derrubar, e esse muro... Mata-me. Aos poucos. Devagarinho. Tão devagarinho que eu quase não noto. Vou definhando aos poucos. E não sei o que fazer. Acho que foi um pouco por isso, por sentir isso muito ligeiramente, que comecei a escrever este blog. Para me agarrar à vida com mais força, para me tentar ler, como páginas amachucadas. Não consigo, sentir essa alegria de viver que me dizem para sentir, por causa desse muro monstruoso que se ergueu tão inesperadamente à minha frente, no caminho que fui traçando nestes anos. E não posso dizer tudo isto a ninguém. Cheia de remorsos, vergonha que me preenche cada dia pior. Saber que vou ter de viver com tudo isto durante tempo indeterminado. Até descansar por fim. Vou-me afastando de tanta coisa, porque me recordam de alguma maneira (mesmo que apenas ligeiramente) o que aconteceu. Mesmo de uma maneira muito superficial. Parece que basta um bocadinho. Um gotinha para vir tudo ao de cima, como se fosse de novo o dia seguinte e eu estivesse ali, parada, a olhar para o vazio. Sem saber o que pensar, o que dizer. O que sentir. Sem saber coisa alguma. E sabendo tudo isso, ao mesmo tempo. Saber exactamente o que devia ter feito, o que devia ter dito, o que devia ter acontecido. Foi tudo tão errado, como não devia ter sido. Odeio-me por isso. A culpa foi toda minha. Aliás, não tenho bem a certeza de quem terá sido, e acho que isso é o que dói mais. Se eu acreditasse no destino as coisas seriam mais fáceis, suponho. Estaria tudo previamente escrito, não haveria de facto algo que eu pudesse fazer. Mas a verdade é que... Devido a escolhas irreflectidas... Tudo aconteceu. Escolhas que fiz. Dizem que somos o que fazemos. E não me consigo perdoar pelo que fiz (Mesmo cerca de três meses depois). Sujo. Mas, nem tudo na minha vida foi mau e pouco inteligente, também tomei decisões ponderadas e que se revelaram, a curto ou a longo prazo, boas decisões. E no fundo não sou má pessoa. Então porquê? Não sei como algum dia vou poder viver com isto. Não me imagino confortável com esta situação, a viver de uma forma calma a minha vida.
(Apesar de tudo, obrigado. Pelo teu ombro molhado. Graças a ti derrubei por fim esses muros que me faziam desfalecer aos poucos. Pelo teu sorriso. Pela tua mão na minha face, os teus lábios bebendo a água salgada que finalmente fui capaz de libertar. A água que me inundava o coração há tanto tempo e que tu soubeste de alguma forma encantar. Tal como me encantaste a mim. Sem querer. Por querer. A tua mão na minha... Sempre)

domingo, 9 de abril de 2006

«Sou teu», «Sou tua»

Todos os dias são estranhos. Devolve-me. Já.

quinta-feira, 6 de abril de 2006

Depois do ódio


Por Rodrigo Figueiredo, « ..depois do odio...»
(Deixa-me amar-te essa nudez crua com que enfeitas os teus silêncios. Esse olhar que me lanças quando não sabes o que dizer. Nunca sabes o que dizer)

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Poeta do Dia - Alexandre O'Neill

"Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti."

Eu. Só.


Descubro-me aos poucos. Resoluta, firme. Eu. Só eu. Sabe-me bem. Por vezes vou-me abaixo. Mas altiva continuo - em frente. Sorrio. Tenho medo que de tanto tentar mostrar que sou feliz me esqueça de o ser, realmente. De me perder nisto que ainda não sei se estou pronta para ser. Tenho medo por segundos. Mas continuo sempre - Os momentos de fraqueza cada vez menos frequentes. Os «blackouts» da realidade espaçando-se mais e mais. O teu rosto liso. Sem face. Não tens face. Convenço-me aos poucos que nunca a tiveste. Eu, forte. Segura. Só. E tu, uma mancha ao fundo do quarto, uma boca sem lábios que me sussurra palavras doces imperceptíveis, cada vez mais distantes. Um corpo sem forma que me tenta abraçar. Enrosco-me em mim e durmo. Sorrio. Eu, forte, segura, só. Não me quero esquecer de ser feliz - Não me quero esquecer de viver. Sei que não és conscientemente tu quem me atormenta - Eu atormento-me a mim própria e culpo-te a ti. Apesar de seres culpado de muita coisa. Sei que sou forte. Sei que não preciso de ti. Eu. Só. Segura. Assim. Não te consigo ver, esquecer, perdoar, odiar, amar. Não te consigo agradecer. Não te consigo pedir desculpa por isso. Não te consigo NÃO guardar rancor. Não consigo ser só eu, não consigo estar assim. Não consigo lembrar-me de ser feliz!

terça-feira, 4 de abril de 2006

Poeta do Dia - Miguel Torga

Filipe Estrela, «Nú#3»
"Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada. "

segunda-feira, 3 de abril de 2006

Muito, meu amor (Pedro Paixão)

Fotografia por Graça, «In the Black»
"Porque quero eu que tu gostes de mim até não podermos mais?
Para sentir o mistério de sermos só os dois a gostar assim e nunca mais ninguém?
Para me ver livre de mim?
Para apagar o mundo?
Para ter a recompensa do prazer e o alívio que sempre ficou para trás?
Para vencer, vingar, dominar o que quer que seja que ficou por vencer, vingar, dominar?
Tudo isso ao mesmo tempo?
Sim, talvez."
Pedro Paixão em «Muito, meu amor»

domingo, 2 de abril de 2006

Poetisa do Dia - Maria do Rosário Pedreira


Paulo César, «Me and myself»
"Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão
com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,
como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o
nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.
Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim."

sábado, 1 de abril de 2006

Poeta do Dia - António Ramos Rosa


Fotografia de Hugo Manita, «gota de outono»
"Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração."